Neste post propomos uma tradução de uma Crónica de Rabi’ Jaber publicada no jornal diário Al-Hayat no dia 31 de Janeiro de 2007 dedicada à cidade de Beirute:
“Os dias negros estão de volta? A história sentimental da cidade que dorme”
Quinta-feira, 25 de Janeiro de 2007. Onze horas da noite. As ruas de Beirute estão vazias. Atravessas sob as luzes eléctricas cor-de-laranja. Um posto de controlo do exército. Veículos militares. Esta noite, recolher obrigatório. O exército emitiu uma declaração. Os media transmitem a declaração oficial a cada quinze minutos. Sair no distrito de Beirute é proibido das 8.30 da noite até às seis da manhã. Caminhas por ruas secundárias. Ninguém na rua. O vento assobia na Abdel Wahab al-Inglisi¹.
Alguns cães ladram num descampado atrás de um prédio. Não soam como raposas. Isto não é numa floresta. Os prédios não são árvores emaranhadas. As esquinas das ruas, tu conhece-las. Esta ruela não é uma brenha. Serpentes não te atacarão vindas das lojas. O passeio está húmido. A água brota por debaixo dele. O pavimento da rua inchou. Tu conheces estes caminhos. Há anos que atravessas estes mesmo caminhos. tu conheces as montras das lojas. Tu contas as árvores. As laranjeiras de Monot. Os ciprestes de Bliss. A quina na Sioufi. Quem rega estas árvores? As nuvens regam árvores. Esta noite não chove. Ninguém nas ruas da cidade. As pessoas refugiaram-se nas suas casas. O dia foi longo. Terça-feira, fogos disseminam-se pelas ruas da cidade. Na quarta-feira, uma manta negra cobriu varandas, carros e escritórios. O papel branco da secretária está coberto de negro. Isto não é chuva. O nível de poluição subiu. Bebam leite. O leite faz bem. Previne a asma. O fumo paira sobre o cruzamento Monot-Rue de Damas. O fumo paira sobre a manhã de quarta e os trabalhores da construção civil limpam o caminho com mangueiras. Depois, o sol põe-se. Começa quinta. Lutam. Queres saber, ó leitor sentado para além do mar, a razão? Lutam. Ponto-final. À noite, o recolher obrigatório.
Passa da meia-noite. Da janela vê-se a cidade adormecida. O silêncio é incrível. Não há carros a cruzar as ruas. Não há televisões ruidosas. Não há festas. Não há manifestações. Não há casamentos. Não há música. Não há barulho. O silêncio é incrível. Apesar de se estar na cidade. Isto não é uma floresta. Supostamente, Beirute é uma cidade à beira-mar, sobre-povoada. Onde estão as pessoas? Sair é proibido. As pessoas permanecem em casa. Silêncio perfeito. Fechai as portas fechai as janelas. O espectante usa a oportunidade e dorme esta noite. A cidade dorme e ninguém esmurra ninguém. A cidade está dividida. Onde está a terceira metade? A terceira metade existe. Aqueles que calam não são importantes. Talvez não sejam importantes. Talvez sejam a coluna secreta. Quem impede os fósforos e os fogos de atingirem as casas? “Cinquenta justos (Gen. 18:28)”. Dormirão esta noite? O teu amigo disse esta manhã: “A origem da maldição é a geografia.”. Ele disse isso? É díficil nascer neste país e ter uma vida tranquila. O problema não reside nas pessoas, o problema está na localização. Estará certo? Ibn Khaldun² não distinguiria uma da outra. Pois não? Ibn Khaldun não está aqui. Teve sorte. Não, não teve sorte. Ibn Khaldun sofreu. Viveu uma vida difícil. Esta noite, ao contemplar a cidade adormecida, é possivel ver Ibn Khaldun sentado à beira-mar. Ninguém o vê. O mar é de um negro quase verde. As pessoas permanecem em casa. Os soldados vestem os sobretudos. O vento da noite é frio. Apesar de nesta noite o vento ser suportável. Há pouco, havia uma brisa quente. O tempo de Beirute é imprevisível. A cidade assenta numa cabeça cravada no mar. Suspensa entre dois mundos. Se tocada pelo vento marítimo, belisca-a o frio norte. O reumático sofre. O reumatismo é terrível. A gota também.
E a gota? É melhor não comer pássaros no churrasco. A gordura não faz bem. E o reumatismo? Precisa de lã. A lã é uma protecção. Mas, se a lã provoca alergia é um problema. A doença cerca-nos. Não há necessidade de doenças agora. A cidade está adormecida. Não vamos ficar doentes enquanto dormimos. A cidade delira quando dorme. O que vê, pousada como um leão marinho à beira-mar? Vê um pesadelo. Vê o passado o presente o futuro? Ibn Khaldun senta-se na praia de Bourj Hammoud³ perto da montanha coberta de verde. Em que pensa? As emoções da cidade estão divididas. As pessoas estão distribuidas por duas trincheiras, três trincheiras, um número indefinido de trincheiras. É importante estar numa trincheira. Os sacos de areia servem. Os carros queimados servem. As pontes servem. Os vivos servem. Os prédios altos servem. Servem quem? Servem porquê? Não é claro. A opacidade envolve o país. Os olhos de Bourj el-Murr¹¹ olham, enegrecidos cegos à cidade. Para onde ir? Mobilização, mobilização. Todos contra todos. As pessoas entrincheiradas. As trevas estarão de volta? Amanhã de manhã, a cidade estará em pedaços. Traçamos linhas verdes uma vez mais. Habitamos as ruinas do Holiday Inn?¹² Esperamos mais dois dias? Esperamos mais uma semana? Mas porquê? A espera tortura. Tensão. Espera. O estomâgo está ferido de ânsia. Rebentam-te úlceras. Úlceras são um problema. Deve evitar-se comida ácida. O Foul. Babba Ghanoush. Tabbouleh. Tomate. Hoummos com Tahine. Fatteh com grão-de-bico e iogurte. Isto é um problema. Porque fechou Baladour as suas portas? Ibn Khaldun nunca comeu Foul em Beirute. Viveu há séculos atrás e adorava comida magrebina. Qual seria o seu prato favorito? Gostaria de ovos fritos? Gostaria de Ssiadhie e Samkeh Harra?
Notas: